Connections.
29.6.08
11:41 PM
Alguém garota, alguém sozinha
Era uma tarde nublada, com chuviscos por vezes. O mar estava agitado e havia limpado toda a orla na noite anterior, a areia com algas por aqui e ali, a rua deserta e as pedras úmidas. Era de se esperar que ninguém estivesse fora de casa com um tempo desses, mas lá ao final da praia, sentada em uma dessas pedras úmidas e gastas se encontrava alguém. Alguém garota, alguém sozinha. Ela e apenas ela, mais ninguém. Nenhum livro, nenhum passatempo era avistado. Sozinha, sentada, olhando fundo na vastidão do horizonte, contemplando sua solidão.
Estava a pensar em quantos lugares existiam, em quantos gostaria de ir, em quantas pessoas existiam, em quantas gostaria de conhecer. Sonhava, mas a cada quebrar das ondas era levada novamente à sua realidade: não havia lugares que pudesse ir nem pessoas que pudesse conhecer, era ela e apenas ela.
Absorta nesse mar de pensamentos quase não prestava atenção ao seu redor, porém quando alguém se aproximava pela beira dá água não pôde se conter e teve que se indagar: "estaria sozinha também?".
Ao passo que a pessoa se aproximava começava a perceber que não parecia com nada que já tivesse visto em toda a sua ínfima vida. Apertava os olhos para conseguir enxergar melhor, mas não conseguia distingüir tão excêntrica criatura. Tinha pouco mais de um metro de altura. Aproximava-se lentamente. Parecia quadrúpede. Estava agora a poucos metros. O corpo coberto de pêlos como uma lhama... não, não era pêlo! Era... alga! Subia cuidadosamente as pedras... agora conseguia ver que no meio de toda aquela alga (que não era, mas parecia muito com alga) havia um rosto. Um rosto humano, uma menina, em torno de uns 8 anos talvez.
"Oi" - disse a criatura.
Sem resposta.
"Por favor, não se assuste com minha aparência. Em breve estarei bem." - insistiu.
"Mas, o que aconteceu a você?" - consegui finalmente perguntar.
"Na verdade, nem eu sei. A vida é bem injusta, e me colocaram no mundo deste jeito que vê. Mas é temporário, em breve estarei como você... só que não permanentemente. Mudo com a chuva, com o tempo, com a maré... não sei bem."
E era verdade. Enquanto conversavam, a "coisa" mudava de instante em instante e inexplicavelmente se transformava em uma adorável menininha com seus 8 anos. Os 8 anos que pareciam 80 de tanta sabedoria que aquela singela criatura carregava, filosofava sobre a vida, sobre as pessoas, sentimentos... Falava com tanta sabedoria e convicção que confortava alguém. Alguém garota, alguém não mais sozinha.
Não se sentia mais afastada de todos aqueles lugares e pessoas, aqueles sonhos, aquelas aventuras. Seus medos, agonias e fracassos foram banidos em questões de minutos. Não se sentia largada, agora tinha alguém com quem compartilhar suas aflições, suas indagações, suas besteiras que fossem.
Passariam horas a fio ali, provavelmente uma eternidade, sem nem sentir falta de comida ou bebida, sem sentir fadiga ou frio, calor. O mundo era agora só daquelas duas pessoas. Mas o mundo não duraria para sempre.
A criatura das algas tinha que partir, seu lugar era o mar e se não voltasse morreria. Não era mais uma menininha, era aquela "coisa" novamente, e não mudaria de novo. Alguém não queria deixá-la partir, não queria ser alguém sozinha de novo. Queria passar o resto de seus anos ali, não mais voltar pra casa, não mais ter obrigações, não se importar mais com nada. Porque era assim que se sentia, se sentia livre, confortável, segura, sem medos. Poderia até dizer que estava feliz, mas não sabia direito o que era felicidade.
Não queria deixá-la partir, agarrou-a forte e queria fazê-la prometer não a abandonar, mas não era possível. Ouvindo um adeus, se jogou às lágrimas. Aos soluços, com a face toda úmida e os olhos inchados, as lágrimas corriam pelo seu rosto de encontro com a "coisa". Quanto mais pensava em ter que soltá-la e deixá-la ir para sempre, sem a menor chance de saber se a encontraria de novo, mais seu rosto se molhava. E foi no meio de todo esse desespero que a "coisa", que não mais se transformaria em menina, se transformou.
As lágrimas cessaram por uns instantes para voltarem logo em seguida, mas desta vez acompanhadas por um sorriso... dois, aliás. Dois sorrisos que viraram gargalhadas, depois silêncio, depois conforto.
Conforto que permaneceria por toda a eternidade ali, naquela praia, naquelas pedras, naquele horizonte,... naquele infinito.